Terça-feira, Março 11, 2008

Esperança

Era uma confiança tão pequena em acreditar, uma esperança que vale a pena perpetuar… Um gostar de ser assim, crente na vida, no optimismo de uma verdade que não se crê, mas que se deseja ser diferente. A vida brilha mais quando se acredita, se vê o mundo em tons de azul e cor-de-rosa… Querer afastar o cinzento e olhar para ao lado e ver quem tem de tão genuíno a crença de um futuro gigante. A pauta da vida, tem um som a primavera, um sabor a chocolate quente, um odor de um campo de rosas, um tacto de algodão em rama, um olhar profundo de paz e um sexto sentido de felicidade.
Encontro a cabeça no teu ombro, conheço os meus dedos nos teus e prometo acreditar, pelo menos até acordar.

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

Desamor

Sobe a calçada descalça pela vida, as rugas não visíveis da idade mostram um caminho ainda curto de sabedoria. A fechadura estreita permite vislumbrar ao longe o amor. Sim…aquele desejado por tantos e colhido por alguns. Uma carícia sentida na saudade de um gesto que ficou para trás, assassinado nas conversas afiadas de cansaço. A cabeça pesa sobre os ombros, a leveza de outrora sucumbiu e as horas infinitas de solidão fazem os minutos saberem a dias azedos e nauseabundos. A inclinação é soberba e as chagas plantadas não permitem avançar. Olha para trás, tarde demais… Magoa voltar atrás, insuportável caminhar em frente. Enrola o desejo, apaga a paixão, observa o vazio e encontra um lugar. O lugar onde o amor espreita, mas não pertence, um lugar onde todos os venturosos passam ao largo. O lugar onde se sobra e onde apenas se ouve a palavra saudade.

Terça-feira, Novembro 27, 2007

Momento Único

Sei que estás aí… Sinto o teu respirar…
O toque suave no meu ombro, quando o mundo teima em rodopiar…
Não consigo ver o teu rosto… Apenas a tua essência…
A forma como fazes nascer as cores garridas…
Passo a mão na silhueta desenhada ao som da lua…
Visiono o cruzar do olhar… Como é importante o olhar…
Há o arcano que me embala e me abraça nos dias gelados de luz…
Tanta descrença e tamanha confiança…
Esse dia é nosso, num pestanejar, sinto o cheiro do futuro que porfia o tempo.
Nesse momento único, a vida sabe a sal e pimenta, a queijo e marmelada…
Sabe a mim, sabe a ti… Não, sabe a nós!

Terça-feira, Outubro 16, 2007

Unidade

Chove a cântaros… O chiar dos ferros nos carris anunciam a chegada… Pego na sacola que me acompanha. Pesada. Tento colocá-la ao ombro, mas ela não cede, talvez pelo peso, talvez pela força ausente do cansaço da jornada. Ao meu ouvido sinto o sopro de uma voz amaciada: “Eu ajudo.” Sorrio, num gesto inato de crédito. “Sempre?”, pergunto… “Para sempre.”, responde. Pegamos, cada uma numa alça laça da vida e penso: “Afinal não é pesada, é doce de se levar”. Olhamos o horizonte e ouvimos o barulho do nosso pensamento: “Deixou de chover e quando a nuvem voltar, esta sacola, com a ajuda das nossas mãos unidas colherá toda a água que um dia regará imensos jardins”.

Terça-feira, Agosto 28, 2007

Paz

Sinceridade morava lá... Beleza de um encanto escondido por detrás das palavras... Encontros numa tarde de um sereno embriagar de almas... Ao fundo a noite tomba de mansinho… Sobra o cheiro do que ficou por dizer e a fome do passado já digerido.
Caíu uma estrela, a mais brilhante do céu que nos veio acordar da calma jazida nos lábios degustados. O vento… novamente o vento… Aquele que nos embala as noites que teimam em querer fugir para terras distantes...
Desce um pintalgar ligeiro, roubando o visível sombreado que acutila o sonho, aquele que rebenta a cada passada do destino apurado por entre tantos traços desenhados pela escolha.
Encaixo a mão entre os finos cabelos que se entrelaçam, fecho os olhos e assim me deixo adormecer…

Quarta-feira, Agosto 15, 2007

Feitiço

Menina bonita… alcunha conquistada pelo olhar singelo e pele tenra, onde a vida não se permitia entrar. Olhava em volta e piscava o olho direito, ao mesmo tempo que segurava o chapéu de palha que teimava em lhe tapar o rosto. As chinelas frescas e vistosas saltavam entre os dedos, como se quisessem antecipar… o cabelo já sem pressa deixava se ficar na reminiscência das quadras arcaicas. A saia rodava ao sabor do vento e com ele o pensamento voava. Fora visitar as estrelas, que faziam parceria com lua mordida pelos amantes. Caiu redondo no chão ao vê-lo… Menino bonito… a boina deixava escorrer o suor da descida cadente por detrás do sol. Vinham de longe, onde só as memórias têm a chave de regresso.

Sábado, Agosto 11, 2007

Solidão

Estou só… A janela entreaberta deixa entrar a noite, onde os grilos vivem o seu cantar.
“Tens tudo para ser feliz!!” Quem disse? Quem sabe?
Estou só… Lá fora há gente, cá dentro moram tantos… Onde estão? Para onde foram? Onde ando eu? Que fizeste da tua vida, que ela não te acompanha, hoje, ontem… e amanhã?
Estou infinitamente só… Estou ou sinto-me? Olho a parede onde fulgura o reflexo da lua que coabita o mesmo espaço e entende os meus murmúrios.
Estou só… Sinto a vida a fugir entre os jeitos e ausenta-se a vontade já exígua de mudar. São trinta pequenos campos de saudade, de memória, de vida..
Era menina traquina, era garota que julgava ser mulher, era mulher que queria ser gente… Estava cheia de tanto, que a qualquer momento eclodiria de ventura… Foi assim… Foi… Talvez não fosse ela meritória de tamanho sentimento… Cresceu por fora, com braços longos, pernas robustas, tronco corpulento, com espaço eterno para caber um coração colossal… Era extensão a mais, ele foi-se sentindo pequeno, acanhado, fechando-se a uma velocidade que a razão não permitiu travar…
Hoje, estou só… Talvez por o coração já ser demasiado pequeno, talvez porque o corpo é grande demais… Mulher que sonha ser menina.
Estranho, não há vento.
As lágrimas caem devagarinho, sobro eu aqui, só.

Sábado, Julho 28, 2007

Intrínseco

Desligo o rádio. A rua está deserta e não há mais caminho por percorrer. A manhã desponta com um azul envergonhado que deixa vislumbrar o tanto que se sabe. Sabe? A chuva cuidadosa desenha no vidro um singelo sopro de novidade. A vida deu a curva redonda de um final adiado pela vontade, sobrando a querença por um recomeço. A porta empurrada pela força humana, teima em se deixar prender. Olho a casa com janelas aos quadrados, alinhadas como se um jogo fizesse parte dela. Nublado. A escuridão acometia o espaço. Bato a porta. Encosto a cara. Repouso. Volto a abrir. Ninguém. Escuto ao longe uma súplica que se torna pequena, com a dimensão de um zoado incomodo. Vinha de dentro? Dentro. O redor assusta. A vida assusta. Qual? Sigo a seta que o chão indica. Resta o nada. Sobro eu. A linha é longa, extensa demais para as pernas cansadas do atalho que se decidiu. Não. É talvez curta para o que ainda há para distinguir. O contorno azulou e a estafa virou companhia de uma história contada a uma só voz.

Domingo, Maio 27, 2007

À mão de um clique

Num mundo que se torna aos poucos, ausente de tempo, surdo de demora, impaciente na escuta, as novas ideias, os atropelamentos de exposição, abriram caminho sombrio ao ciberespaço.
Suavemente novas formas de comunicar emanam, ora sem rosto, ora agregado ao renome já instituído na praça de uma sociedade inevitavelmente diferente.
Dez anos se passaram desde o surgimento da tão badalada e discutida blogosfera.
Cerca de 50 milhões de pessoas fazem do blog a sua leitura diária e mais de 15 mil novos são criados todos os dias.
Um universo onde o espaço é para todos, onde a informação e a opinião é permitida e automática, onde se mostra e se vê, onde se aprende e se ignora, onde se erra e se reconstrói, onde se critica e elogia, onde se ofende e se encanta, onde o anónimo se torna gente e a gente, um igual.
Os géneros acompanham os interesses percorridos pelas mentes que os habitam, políticos, poéticos, publicitários, babyblogs, diários, entre tantos outros, mistos de motes, mas onde o parecer impera como uma verdade universal e única, onde os comentários são permitidos, como vozes que ecoam fazendo ampliar o mundo que por eles é povoado.
Verdades? Tantas, que escondem a dúvida que teima em morder o calcanhar tatuado pela vida.
A cada visita, está um ser, que começa por ser um enigma a desvendar, uma curiosidade que preenche o dia, uma surpresa saudável, uma mágoa.
O regar da flor, o aumento dos contadores, a luta por um lugar ao sol.
O vício simplificado do puxar de um cigarro carregado de significado ou facilitado pelo gesto. Uma dependência que preenche os dias e desata as amarras da solidão, do grito a viva voz de tudo o que não consegue ser escutado na comunicação tradicional.
Ao clicar a cruz, o mundo esconde-se e sobramos nós, agora mais ricos em memórias de vivências solitárias por detrás de um ecrã.

Adenda: A pedido de um igual, em breve.

Segunda-feira, Maio 14, 2007

Cumplicidades

Um olhar basta…
No meio do nada esse contemplar encontra-se, inebriado pelo único.
As vozes surgem, esbatem-se e o vigor encantado permanece, como uma onda de perfeição, que nos iguala.
O que nos rodeia é inexistente, ausente de porte, desgarrado de valor.
O tempo não volta, a vida não corre, aqui sobramos, acompanhados da saudade do vivido e sedentos do sonhado.
Anseio voltar a ver-te… O palheiro que nos circunda, torna-nos imersos numa solidão sem fim…
A mágoa existente num olhar que não rima ao apelo do duo, move-se violentamente em todas as orbitas, incessantemente até ao dia em que o mundo tornar a girar numa melodia encantada e esse cruzar renascer.
Onde está aquele piscar?

Terça-feira, Abril 03, 2007

Encanto

Encontro o teu olhar, num instante incauto da luz.
Reflecte o som da magia, esquecida por de trás do gesto.
Um toque sublime preenche o espaço que sobrou do nada.
Reflicto na nova extensão ocupada do pensamento.
A dúvida assola como uma mancha que nos lembra o presente.
Transporto comigo, a tatuagem que assina o rebate do desejo.
Sinto o florescer da chama, que afasta a linfa e bombeia o sangue.
O coração bate e a coragem escasseia…
O caminho é sombrio.
Serro os olhos e fujo da luz obscura.
Observo em volta e vislumbro a casa.
A minha. Há um lugar para mim.
Talvez ali… mas sempre aqui.

Quarta-feira, Março 21, 2007

Início

Truz, truz…
Quem é? É a prima do Inverno, que lavou a terra, gelou os mares e levou as folhas amareladas do amigo Outono…
Vim para ficar, três longos meses… Venho trazer o sol, aquele que aquece a alma dos ramos secos dos murmúrios ventosos… Chego de mansinho e acordo os pássaros, que me acorrem a beijar e esvoaçam nos meus cabelos. Sou querida pelos enamorados e desejada pelos desventurados.
Só comigo os frutos vêm rebentar os seus botões, os campos se enchem de flores, as abelhas pousam de pólen em pólen e a vida inicia a sua reprodução…
Muitos são os meus filhos que brotaram num ventre numa noite de luar imenso…
Caminho, por Março, Abril, Maio e acabo por partilhar o Junho com o til mais almejado do universo.
Aproveitem a minha estada, e não se entristeçam quando o desfecho estiver à vista, para o ano voltarei em força e a vida retornará a nascer.

Sábado, Fevereiro 10, 2007

Ser mãe

A dimensão de um abraço de um filho é algo de tal forma indescritível que se torna soberbo.
Toda a minha vida sonhei em ser mãe… De tal forma que cheguei a crer que tal dia nunca chegaria…
Os tempos foram passando e o medo apoderava-se de qualquer razão ou desejo…
A luta travada em silêncio, doía cá dentro como se de uma navalha se tratasse…
Cada dia era pautado de dúvida e desespero, de amor e ansiedade, de vontade e de temor, novamente o medo persistia…
Quando soube da sua existência fiquei incrédula, tal era a extensão que o pavor tinha atingido…
A minha existência tinha um novo significado, a palavra mãe iria existir, no seu sentido maiúsculo e verdadeiro…
O meu sorriso vinha de dentro, de dentro de mim, na existência de um ser... Um ser que era parte do meu ser…
Hoje, quando o olho, quando o seu sorriso enche a casa, me embala as noites, que terminam sempre com um afago no meu rosto, de uma mão pequena na sua medida, mas enorme na sua essência… Quando os seus pequenos braços envolvem o meu pescoço e a sua face se enrola na minha, sinto o meu corpo desfalecer, não de cansaço, não de tristeza, mas de um prazer sublime, que se torna numa plenitude que nos encaminha ao céu.
Que mais podemos nós pedir da vida, do que tamanha mestria?
Sou mãe e este abraço é a minha vida!

Adenda: em nada este texto tem a ver com o dia de amanhã, por amar o meu filho, voto Sim.

Quinta-feira, Dezembro 28, 2006

Horas

Os ponteiros do relógio preguiçosos, que teimam em se encontrar vinte e quatro longas vezes, observam o mais fino que nunca se cansa, espicaçando-os para não se demorarem, pois a vida corre lá fora. Eles pensam: para quê correr? O nosso destino, nunca sairá destas paredes vazias… Não digam isso, talvez existam horas, que valeria a pena parar o tempo, outras tantas que tenho vontade de fazer o caminho de volta e encontrar as horas de outrora. Mas na sua pluralidade, apetecia-me dar-vos um pouco da minha veemência e fazer-vos voar, a um tempo ainda não vivido, onde a curiosidade mora, onde a felicidade existe. Contempla a tristeza daquela mulher que um dia foi catraia e que feliz era. Já não tenho força de remar contra a maré, mas talvez ao sabor da corrente, com um sopro de coragem, juntos, sempre contíguos, conseguíssemos percorrer o hoje e chegar ao amanhã, aquele que ainda não se conhece, mas que se crê iluminado e aquecido pelo sorriso de quem ama.
A vida é essencial a quem mira, todos nos observam na esperança de algo esplendoroso, que é encoberto, mas que se espera sempre.
Se não podemos voltar para trás, caminhemos juntos, numa velocidade que permita alcançar o tempo da magia que está para chegar.

Quinta-feira, Novembro 30, 2006

Vontade

Não quero. Porquê? Nem sempre os porquês interessam. Quero-te ajudar. Não quero. Tens de me ouvir… talvez se me ouvisses conseguisses entender… Não quero. Deixa-me abraçar-te. Não quero. Os saltos percorrem o corredor e a alma fica. O não quero permanece na sala, o querer faz bater a porta e fecha-se lá dentro com vontade de sair. Porquê? Porque não me ouves? Porquê? Porque não te consigo explicar o que sinto? Porque não me entendes? Não quero ficar aqui, não quero ir para aí… Não sei o porque, sei que não é isso que quero, sei que nada poderás fazer para que eu queira. Quero sair daqui… Aí está escuro… Aqui o negro assusta… Onde? Onde? Não quero…
Queria, mas não quero…

Terça-feira, Outubro 31, 2006

Impotência

O punho serrado contra porta, faz estremecer os mais incrédulos.
A fenda redonda deixa vislumbrar a temida chegada.
A força com que bate, não deixará a barreira de pé.
Olho a janela, o precipício não permite que fujas.
Estendo-te as mãos vazias de solução, deito a minha cabeça por cima da tua, aferrolho os olhos e deixo correr a última lágrima por cima dos teus cabelos já cansados.
Despeço-me de ti, caminho para a porta e deixo o intruso entrar.
Fecho a porta e percebo, foi a última vez que te vi.

Terça-feira, Outubro 24, 2006

Ignorância

Aconchegada à janela, as arvores galopam, misturando-se com os rios.
Devagarinho a imagem torna-se mais nítida, mostrando o óbvio.
Desce as escadas mal as portas se abrem e pisa a terra molhada, que o Inverno ostentou.
Como conhecia aquele cheiro…
Ao longe uma figura esbelta, de rosto fechado caminha em sua direcção.
Espera sem mover as raízes que trouxeram aos tempo de outrora.
A recusa desponta num feito brutal, fazendo anular a razão.
Antes das portas se fecharem, corre e avassala o seu interior.
Vê a figura se trasladar e a paz fugir
A insipiência auferiu.

Segunda-feira, Setembro 18, 2006

Cansaço

Por maior que seja o nosso sofrimento, os dias, as noites são iguais.
As pessoas cruzam-se connosco num corredor e ouvimos gargalhadas sonantes.
As flores continuam a nascer, as luzes na estrada acompanham o nosso caminho.
O homem da portagem diz boa noite, o médico no hospital fala de arroz de marisco, a empregada do café olha as nossas lágrimas a correr, o hábito endurece…
O chegar a casa, o frio gela.
O cansaço venceu.

Quinta-feira, Agosto 31, 2006

Pausa

Uma pausa pressupõe um recomeço, uma continuação abandonada pela infindável necessidade da procura.

Apreciar sem pressa, verter com ânimo, um aquietar do espírito, um ficar para ver, um olhar em redor, um voltar em vontade.

O tempo pára e corre.

É breve…

O tempo acaba, o amanhã chegou.

Quarta-feira, Agosto 30, 2006

Sentidos

Preciso de te olhar e te ver.

Preciso de sentir o teu respirar.

Preciso de experimentar o soalheiro da tua palma e de mãos dadas caminhar no sonho.

Preciso de perfumar a minha alma com o teu incenso.

Preciso de apreciar o teu odor, para me sentir viva.

Preciso que a saudade me venha beijar ao de leve, para mais tarde te levar comigo.

Preciso de provar o mel, para amanhecer inteira.

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

Angústia

Uma dor que começa na boca do estômago, tornando-o revolto, sobe até à garganta fazendo um laço.
Abranda o nosso olhar, acinzenta o nosso sorriso.
Uma constante que nos rouba o pensamento, fazendo as paredes encolherem e aperta, tanto.
O medo assola-nos.
Num ápice faz esconder a força que nos faz erguer e a inércia vence.
O enliçado que nos abraça, arruína-nos a vontade.
Inunda-nos como tsunami.
Eleva-nos aos céus como furacão.
Queima-nos como buraco negro.
Mata-nos como vírus.

Sábado, Agosto 26, 2006

Inconformismo

Olho o espelho, baixo a cabeça envolta pelas mãos e suspiro.
Ganho força e ergo-a novamente. A imagem reflectida é proveito da imaginação.
Não aguento. Tudo está distorcido, manchado, feio.
Os dedos contornam os olhos, obrigando-os a desabrochar. Quem me olha?
Levanto-me num ápice e corro para o outro lado do espaço.
Fico de costas, sereno. Tenho receio de me virar.
O redor está vazio de movimento, sedento do tudo que a ausência presenteia.
Não consigo sair dali, para ir onde?
O desespero enraizou o impulso da procura do não sei o quê que talvez quem sabe fará bem.
Dou voltas e voltas sem conseguir sair do mesmo lugar. Sinto-me desafiar o desvario, preciso de encontrar sentido nestas vivências, neste ser que não conheço. A luta travada, não sorve o desenlace apetecido, não me enche por inteira.
Não sou eu.
Volto-me. Quem és?

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

Certezas

Sara era sua amiga desde que se lembra de ser. Juntas, viam desaparecer as horas, no terraço da avó, olhavam os carros que passavam na ponte rasteira, ao mesmo tempo que partilhavam a vida. Foram crescendo e permanecendo, mudando de poiso, alterando vícios e desejos. Eram diferentes, muito, mas a cumplicidade que as unia tornava-as cada vez mais contíguas.
Um dia tudo se modificou. A Sara conheceu o Vasco, um rapaz bem parecido, com bastantes posses e esmagadoramente inteligente. Por ele se encantou, estreando-se um amor que prometia felicidade.
A vida deu a volta, eles casaram, mas a amizade delas sobreviveu.
O tempo ia passando e a tristeza dela ia surgindo e engrandecendo, sentia que a Sara tinha mudado, que a amizade delas já não estava acima de tudo. Sentia-se a sobejar.
Continuava sozinha e sem grandes ambições e observar aquela felicidade, assustava-a.
Deixou de aparecer tanto quanto era costume, esperando pela procura da Sara. Isso acontecia, mas ela mostrava-se feliz, como se tudo aquilo não a magoasse.
Os anos foram andando e a cumplicidade não era a de outrora, falavam pelo telefone, encontravam-se esporadicamente, mas a dor da sua infelicidade não deixava que a amizade continuasse a florir. Havia sempre um pé atrás, uma necessidade de afirmação, uma tentativa de desinteresse. Os telefonemas foram desaparecendo, as faces foram deixando de se cruzar e a ausência sobrando.
As certezas iam crescendo, a Sara tinha sido capaz de ser feliz e de se esquecer da harmoniza que as aproximava, da amizade que as tinha feito partilhar o mundo. A amiga nunca mais se preocupou com a sua infelicidade, com a sua solidão.
Depois de tanta certeza e tanta raiva pegou no telefone e ligou. Atendeu a mulher do Vasco, que depois de perceber de quem se tratava, respondeu: Ela morreu, há já seis meses, suicidou-se coitada.
E com ela, as certezas.

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

Crer

Atravessou as portas desmedidas, lá dentro o fresco regia.
Silenciosamente percorreu o estreito. Escolheu aquele assento de madeira.
Sentou-se e olhou. Apeteceu-lhe fumar. Não seria conveniente.
O barulho quase inexistente fazia soar o seu transpirar.
Afastado, murmurares surgiam por detrás de um tabique de madeira.
Não percebia o que se pronunciava, apenas o sentia como perturbador.
A língua morta percorria as paredes em escritos que acompanhavam imagens.
Era estranho estar ali, não era seu costume, talvez por isso se sentisse restar.
Ao fundo uma criança vestida de branco passeava-se, com um objecto difícil de definir.
Duas senhoras de idade pareciam cochichar sobre alguém, que já algum tempo observava. Era uma senhora de cara franzina e olhos inchados, segurava um livro e um pequeno lenço. Ela parecia pertencer ao clã, pois não perdera tempo a observar o que a rodeava.
Mais atrás, um senhor de cabelos grisalhos e cara fechada, articulava uma lengalenga conhecida pelo comum dos (i)mortais.
Nunca tinha aprendido, hoje fazia-lhe falta.
Hoje precisava de pertencer aquela família, as portas fechadas e a inconformidade, teriam resposta ali, naquele momento exacto, estaria tudo decifrado.
Bastaria ajoelhar-se, juntar as mãos e rezar.

Segunda-feira, Agosto 21, 2006

Ausência

O vazio tocou ao de leve, escalou pela perna e instalou-se. Estreia-se velozmente, desampara, desabriga, desprotege e perdura vagarosamente.
A dor acompanha a jornada que se adivinha tortuosa e desleal. Os dias passam morosamente, numa delonga, que lacera, que estraçalha.
O corpo fica miúdo e dormente, o que envolve perde o sentido, estranha o sabor, altera a cor. Uma nuvem constante partilha os pensamentos que por mais que vão, dobram.
A vontade de não permanecer, de não existir, de não querer saber, se avoluma.
O desespero espreita, a sanidade oscila e o desassossego comparece.
Um renascer promete atrasar, um esquecer afirma-se quimérico.

Sexta-feira, Agosto 18, 2006

Memória

Cheira a terra molhada, a lareira enche a casa que nos abrasa os olhos… O sofá faz descansar a manta, provo o café, que queima por dentro. Pego no livro, que me acompanha a noite. Através dos vidros, a chuva tomba de mansinho, faz-me afastar os pensamentos para outra dimensão, para outro tempo.
Estamos em agosto, as férias grandes chegaram, com elas a amizade regressa, aquela que tanto esperei ao longo do último ciclo.
Corremos estradas e campos, nada passa sem nos ver, perceber o globo faz parte do nosso imaginário, visitamos plantas e animais, casas e fábricas.
Chegou a demora das asneiras, a ansiedade do erro, a vontade do devaneio… A alegria, tanta… O mundo era aquele dia, a vida acabava e tudo tinha de ser feito…
Cai forte, tão forte, que me acorda…
O sorriso acompanha o meu livro pela noite fora.

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Caminho

Uma frecha trouxe a claridade. Atravessou a porta de mão dada, de mala às costas, era pesada e grande, difícil para alguém tão pequeno, mas era ele que a tinha de carregar.O trilho era estreito e sinuoso. As pedras no chão, roliças e de pequenas dimensões, aguçam a sua curiosidade, pega numa e fá-la voar. No horizonte desaparece sem deixar rasto. Ouvia cada vez mais longe a voz: cuidado, tens a certeza? Convicto da sua capacidade, continuou fazendo ouvidos moucos. O sol já vai alto. O cansaço surge, mas o desejo em percorrer persiste. Depois de algum tempo de caminho, as pernas engrandeceram, o tronco tornou-se mais amplo, os braços mais longos… O caminho, esse, transformou-se, agora maior e mais intrincado, as pedras tomaram outras dimensões, agora mais difíceis de transpor, surgiram, rios e mares, montanhas e planícies, flores e cactos, pombas e cobras. Por vezes o medo, por vezes a paz… A curiosidade morava lá, lá onde passava, lá onde queria estar… a voz já não se fazia soar, ou talvez os seus ouvidos tivessem cerrados…Cruza-se com uma imensidão de seres, uns cansados pela vida, outros a tentarem estafa-la… Vários pensamentos despontam, várias opiniões irrompem… O seu pensamento gira a uma velocidade estonteante, onde existe uma vontade de mudança e uma mudança da vontade… O que é verdade hoje, amanhã já não o será…Distraidamente e sem perceber como, vai de encontro a um muro, a cabeça ganhou um inchaço, o coração uma dúvida. O muro era desmedido e não havia como transpô-lo… Novamente o pensamento entrou em conflito, o apetite, o perigo, a incógnita, a vontade… Lança o escadote, sobe, sobe, sobe, tão alto que parecia chegar ao céu… A paisagem era deslumbrante, muito mais do que alguma vez teria imaginado, mas tudo o que era pormenor e pequeno fugia-lhe tornando-se incontrolável, mas a confiança no seu instinto era mais forte, mas… de novo aquela voz ecoa, parecia que os seus ouvido de repente permitiam deferir algo…
Mas residia a dúvida: O que faço?
Assim se cresce, a asa desaparece fisicamente, mas permanece sempre no coração.
03.Agosto.2006

Terça-feira, Agosto 15, 2006

Felicidade


Como definir, o que é diferente em cada um?
Como atingir e alcançar algo tão abstracto, quando implica um pensar diferente, uma divergência no estar?
Ser ou não ser… É simples, delicado, desejável?
Será?
Uma procura constante que faz a vida seguir um rumo, em que o seu altear é equívoco.
Uma batalha prolongada que termina com sabor a escasso.
Uma plenitude que se estraga com o desejo descoincidente.
Que seria dos desejos, dos objectivos, das ambições?
Será que se pode ser infeliz por se atingi-la?

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

Barulho do Silêncio

A procura incessante por ele, numa atmosfera tão audível onde se habita, torna-o numa preciosidade, quando em tempos de outrora era uma constante. O cansaço causado pela sonância que envolve o quotidiano dos dias de hoje, faz esperar a madrugada, onde o telefone não toca, os carros não se sucedem, as vozes não se ouvem e a calma vem bem acompanhada.
O silêncio não é uma ausência de som, é um entoar que transporta uma vibração, um crepitar silencioso, um bater de uma brisa, uma vaga de tudo e uma constante do nada.
Ao mesmo tempo que desejado, o hábito faz dele, delicado de gerir, pois tudo o que é novo é inquietante e tenebroso.
Essencial… Difícil de encontrar com prazer de ficar.

Sexta-feira, Agosto 11, 2006

Sorriso

Pode ser esboçado, amarelo, verdadeiro, singelo, malandro, reconfortante, simpático...
Começa com um pequeno desvio simétrico, que se alonga subindo, enrugando-se, terminando num serrar de olhos, podendo atingir mesmo uma gargalhada, onde as gotas salgadas são convidadas a participar. O ventre contrai com tamanha violência, que obriga a curvar, alojando uma dor que faz padecer de prazer. A vontade de parar e a incapacidade de o fazer medem forças, esperando pacificamente a sua vez.
O dominó propaga-se, transformando o circundante numa atmosfera de euforia e sofrimento. Quando tudo se vislumbra calmo, sem se perceber porquê, a saca recomeça e se espalha por extensos minutos de bem-estar.
Nem sempre representa o que vai na alma, podendo reproduzir uma vontade do que seria desejável, afirmando-se como uma máscara que se forma em carne, fazendo ao longo dos anos parte do eu.
A veracidade reproduz a alegria sentida num gesto, num olhar, numa sensação.
O momento sublime desse intervalo de tempo, é armazenado no fundo do espírito como energia a ser utilizada, quando as forças já não existem para o expressar.

A ti

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

Negra

Tudo começa com um grito ao rasgar o ventre ensanguentado. Num instante a duplicação surge, como um desabrochar de um brinde, que caminha em vida inerente, onde o respirar independente corta o cordão umbilical.
A uma velocidade imensa, se atinge uma maturidade assustadora, onde tudo o que até então não era pensado se torna inteligível e questionado.
A procura das causas da realidade, vai assumindo uma importância fundamental naquilo a que chamamos vida. Fazem-se projectos, suplica-se desejos, anseia-se propósitos. O desígnio está traçado, as conquistas surgem, as desilusões conjuntamente vão acompanhando o passo apressado que se atinge até ao culminar conhecido.
As dúvidas, essas, nunca serão respondidas, a cabeça roda e depois de casas, carros, maridos, filhos, dinheiro, tudo acaba da mesma maneira, sem nunca percebermos o que andamos a fazer para um dia levar tão pouco daqui.
O que fazemos aqui, afinal?

Quarta-feira, Agosto 09, 2006

Companheira

O vento sopra forte, as copas das árvores estremecem, sinto o dia ir embora devagarinho… O sol escondeu-se por detrás do claustro, ao fundo vislumbra-se uma linha com uma imensidão de pigmentações, que vai do vermelho ao alaranjado.
O cansaço dos carros de regresso fazem-se escutar, amassado com vozes que resmungam num entoar formoso. O caminho já vai longo e a ânsia de chegar transborda a calceta. Aqui, onde o mundo deu a curva, observo quieta o prazer que usurpa no espírito alheio. Também eu conheço esse atalho… Vivo esse agrado… Chego a senti-lo como meu… Sabendo-o comum, torna-se querido, quando me sento aqui e contemplo ao longe a risca tornar-se negra, sobrando um circulo lácteo, rodeado de pequenos salpicos brilhantes, que me fazem acordar na noite que acudiu.

Terça-feira, Agosto 08, 2006

Vestígios

Talvez seja uma vontade, um sonho ou mesmo uma possibilidade…
O rasto que deixamos no coração dos que se cruzam no nosso caminho, ajuda-nos a sentir a vida de uma forma diferente, mais rica, mais opulenta…
Será esse o propósito da nossa existência? Será que, para além da nossa tranquila vida de seres egocêntricos e cheios de certezas, existe um desígnio mais reduto, onde a dimensão deixa de ser aquela que vemos e se alonga a uma dimensão incorpórea?
Assim quero querer… E se assim for, aqui quero deixar a minha pegada…