quinta-feira

Pausa

Uma pausa pressupõe um recomeço, uma continuação abandonada pela infindável necessidade da procura.

Apreciar sem pressa, verter com ânimo, um aquietar do espírito, um ficar para ver, um olhar em redor, um voltar em vontade.

O tempo pára e corre.

É breve…

O tempo acaba, o amanhã chegou.

quarta-feira

Sentidos

Preciso de te olhar e te ver.

Preciso de sentir o teu respirar.

Preciso de experimentar o soalheiro da tua palma e de mãos dadas caminhar no sonho.

Preciso de perfumar a minha alma com o teu incenso.

Preciso de apreciar o teu odor, para me sentir viva.

Preciso que a saudade me venha beijar ao de leve, para mais tarde te levar comigo.

Preciso de provar o mel, para amanhecer inteira.

segunda-feira

Angústia

Uma dor que começa na boca do estômago, tornando-o revolto, sobe até à garganta fazendo um laço.
Abranda o nosso olhar, acinzenta o nosso sorriso.
Uma constante que nos rouba o pensamento, fazendo as paredes encolherem e aperta, tanto.
O medo assola-nos.
Num ápice faz esconder a força que nos faz erguer e a inércia vence.
O enliçado que nos abraça, arruína-nos a vontade.
Inunda-nos como tsunami.
Eleva-nos aos céus como furacão.
Queima-nos como buraco negro.
Mata-nos como vírus.

sábado

Inconformismo

Olho o espelho, baixo a cabeça envolta pelas mãos e suspiro.
Ganho força e ergo-a novamente. A imagem reflectida é proveito da imaginação.
Não aguento. Tudo está distorcido, manchado, feio.
Os dedos contornam os olhos, obrigando-os a desabrochar. Quem me olha?
Levanto-me num ápice e corro para o outro lado do espaço.
Fico de costas, sereno. Tenho receio de me virar.
O redor está vazio de movimento, sedento do tudo que a ausência presenteia.
Não consigo sair dali, para ir onde?
O desespero enraizou o impulso da procura do não sei o quê que talvez quem sabe fará bem.
Dou voltas e voltas sem conseguir sair do mesmo lugar. Sinto-me desafiar o desvario, preciso de encontrar sentido nestas vivências, neste ser que não conheço. A luta travada, não sorve o desenlace apetecido, não me enche por inteira.
Não sou eu.
Volto-me. Quem és?

sexta-feira

Certezas

Sara era sua amiga desde que se lembra de ser. Juntas, viam desaparecer as horas, no terraço da avó, olhavam os carros que passavam na ponte rasteira, ao mesmo tempo que partilhavam a vida. Foram crescendo e permanecendo, mudando de poiso, alterando vícios e desejos. Eram diferentes, muito, mas a cumplicidade que as unia tornava-as cada vez mais contíguas.
Um dia tudo se modificou. A Sara conheceu o Vasco, um rapaz bem parecido, com bastantes posses e esmagadoramente inteligente. Por ele se encantou, estreando-se um amor que prometia felicidade.
A vida deu a volta, eles casaram, mas a amizade delas sobreviveu.
O tempo ia passando e a tristeza dela ia surgindo e engrandecendo, sentia que a Sara tinha mudado, que a amizade delas já não estava acima de tudo. Sentia-se a sobejar.
Continuava sozinha e sem grandes ambições e observar aquela felicidade, assustava-a.
Deixou de aparecer tanto quanto era costume, esperando pela procura da Sara. Isso acontecia, mas ela mostrava-se feliz, como se tudo aquilo não a magoasse.
Os anos foram andando e a cumplicidade não era a de outrora, falavam pelo telefone, encontravam-se esporadicamente, mas a dor da sua infelicidade não deixava que a amizade continuasse a florir. Havia sempre um pé atrás, uma necessidade de afirmação, uma tentativa de desinteresse. Os telefonemas foram desaparecendo, as faces foram deixando de se cruzar e a ausência sobrando.
As certezas iam crescendo, a Sara tinha sido capaz de ser feliz e de se esquecer da harmoniza que as aproximava, da amizade que as tinha feito partilhar o mundo. A amiga nunca mais se preocupou com a sua infelicidade, com a sua solidão.
Depois de tanta certeza e tanta raiva pegou no telefone e ligou. Atendeu a mulher do Vasco, que depois de perceber de quem se tratava, respondeu: Ela morreu, há já seis meses, suicidou-se coitada.
E com ela, as certezas.

quarta-feira

Crer

Atravessou as portas desmedidas, lá dentro o fresco regia.
Silenciosamente percorreu o estreito. Escolheu aquele assento de madeira.
Sentou-se e olhou. Apeteceu-lhe fumar. Não seria conveniente.
O barulho quase inexistente fazia soar o seu transpirar.
Afastado, murmurares surgiam por detrás de um tabique de madeira.
Não percebia o que se pronunciava, apenas o sentia como perturbador.
A língua morta percorria as paredes em escritos que acompanhavam imagens.
Era estranho estar ali, não era seu costume, talvez por isso se sentisse restar.
Ao fundo uma criança vestida de branco passeava-se, com um objecto difícil de definir.
Duas senhoras de idade pareciam cochichar sobre alguém, que já algum tempo observava. Era uma senhora de cara franzina e olhos inchados, segurava um livro e um pequeno lenço. Ela parecia pertencer ao clã, pois não perdera tempo a observar o que a rodeava.
Mais atrás, um senhor de cabelos grisalhos e cara fechada, articulava uma lengalenga conhecida pelo comum dos (i)mortais.
Nunca tinha aprendido, hoje fazia-lhe falta.
Hoje precisava de pertencer aquela família, as portas fechadas e a inconformidade, teriam resposta ali, naquele momento exacto, estaria tudo decifrado.
Bastaria ajoelhar-se, juntar as mãos e rezar.

segunda-feira

Ausência

O vazio tocou ao de leve, escalou pela perna e instalou-se. Estreia-se velozmente, desampara, desabriga, desprotege e perdura vagarosamente.
A dor acompanha a jornada que se adivinha tortuosa e desleal. Os dias passam morosamente, numa delonga, que lacera, que estraçalha.
O corpo fica miúdo e dormente, o que envolve perde o sentido, estranha o sabor, altera a cor. Uma nuvem constante partilha os pensamentos que por mais que vão, dobram.
A vontade de não permanecer, de não existir, de não querer saber, se avoluma.
O desespero espreita, a sanidade oscila e o desassossego comparece.
Um renascer promete atrasar, um esquecer afirma-se quimérico.

sexta-feira

Memória

Cheira a terra molhada, a lareira enche a casa que nos abrasa os olhos… O sofá faz descansar a manta, provo o café, que queima por dentro. Pego no livro, que me acompanha a noite. Através dos vidros, a chuva tomba de mansinho, faz-me afastar os pensamentos para outra dimensão, para outro tempo.
Estamos em agosto, as férias grandes chegaram, com elas a amizade regressa, aquela que tanto esperei ao longo do último ciclo.
Corremos estradas e campos, nada passa sem nos ver, perceber o globo faz parte do nosso imaginário, visitamos plantas e animais, casas e fábricas.
Chegou a demora das asneiras, a ansiedade do erro, a vontade do devaneio… A alegria, tanta… O mundo era aquele dia, a vida acabava e tudo tinha de ser feito…
Cai forte, tão forte, que me acorda…
O sorriso acompanha o meu livro pela noite fora.

quinta-feira

Caminho

Uma frecha trouxe a claridade. Atravessou a porta de mão dada, de mala às costas, era pesada e grande, difícil para alguém tão pequeno, mas era ele que a tinha de carregar.O trilho era estreito e sinuoso. As pedras no chão, roliças e de pequenas dimensões, aguçam a sua curiosidade, pega numa e fá-la voar. No horizonte desaparece sem deixar rasto. Ouvia cada vez mais longe a voz: cuidado, tens a certeza? Convicto da sua capacidade, continuou fazendo ouvidos moucos. O sol já vai alto. O cansaço surge, mas o desejo em percorrer persiste. Depois de algum tempo de caminho, as pernas engrandeceram, o tronco tornou-se mais amplo, os braços mais longos… O caminho, esse, transformou-se, agora maior e mais intrincado, as pedras tomaram outras dimensões, agora mais difíceis de transpor, surgiram, rios e mares, montanhas e planícies, flores e cactos, pombas e cobras. Por vezes o medo, por vezes a paz… A curiosidade morava lá, lá onde passava, lá onde queria estar… a voz já não se fazia soar, ou talvez os seus ouvidos tivessem cerrados…Cruza-se com uma imensidão de seres, uns cansados pela vida, outros a tentarem estafa-la… Vários pensamentos despontam, várias opiniões irrompem… O seu pensamento gira a uma velocidade estonteante, onde existe uma vontade de mudança e uma mudança da vontade… O que é verdade hoje, amanhã já não o será…Distraidamente e sem perceber como, vai de encontro a um muro, a cabeça ganhou um inchaço, o coração uma dúvida. O muro era desmedido e não havia como transpô-lo… Novamente o pensamento entrou em conflito, o apetite, o perigo, a incógnita, a vontade… Lança o escadote, sobe, sobe, sobe, tão alto que parecia chegar ao céu… A paisagem era deslumbrante, muito mais do que alguma vez teria imaginado, mas tudo o que era pormenor e pequeno fugia-lhe tornando-se incontrolável, mas a confiança no seu instinto era mais forte, mas… de novo aquela voz ecoa, parecia que os seus ouvido de repente permitiam deferir algo…
Mas residia a dúvida: O que faço?
Assim se cresce, a asa desaparece fisicamente, mas permanece sempre no coração.
03.Agosto.2006

terça-feira

Felicidade


Como definir, o que é diferente em cada um?
Como atingir e alcançar algo tão abstracto, quando implica um pensar diferente, uma divergência no estar?
Ser ou não ser… É simples, delicado, desejável?
Será?
Uma procura constante que faz a vida seguir um rumo, em que o seu altear é equívoco.
Uma batalha prolongada que termina com sabor a escasso.
Uma plenitude que se estraga com o desejo descoincidente.
Que seria dos desejos, dos objectivos, das ambições?
Será que se pode ser infeliz por se atingi-la?

segunda-feira

Barulho do Silêncio

A procura incessante por ele, numa atmosfera tão audível onde se habita, torna-o numa preciosidade, quando em tempos de outrora era uma constante. O cansaço causado pela sonância que envolve o quotidiano dos dias de hoje, faz esperar a madrugada, onde o telefone não toca, os carros não se sucedem, as vozes não se ouvem e a calma vem bem acompanhada.
O silêncio não é uma ausência de som, é um entoar que transporta uma vibração, um crepitar silencioso, um bater de uma brisa, uma vaga de tudo e uma constante do nada.
Ao mesmo tempo que desejado, o hábito faz dele, delicado de gerir, pois tudo o que é novo é inquietante e tenebroso.
Essencial… Difícil de encontrar com prazer de ficar.

sexta-feira

Sorriso

Pode ser esboçado, amarelo, verdadeiro, singelo, malandro, reconfortante, simpático...
Começa com um pequeno desvio simétrico, que se alonga subindo, enrugando-se, terminando num serrar de olhos, podendo atingir mesmo uma gargalhada, onde as gotas salgadas são convidadas a participar. O ventre contrai com tamanha violência, que obriga a curvar, alojando uma dor que faz padecer de prazer. A vontade de parar e a incapacidade de o fazer medem forças, esperando pacificamente a sua vez.
O dominó propaga-se, transformando o circundante numa atmosfera de euforia e sofrimento. Quando tudo se vislumbra calmo, sem se perceber porquê, a saca recomeça e se espalha por extensos minutos de bem-estar.
Nem sempre representa o que vai na alma, podendo reproduzir uma vontade do que seria desejável, afirmando-se como uma máscara que se forma em carne, fazendo ao longo dos anos parte do eu.
A veracidade reproduz a alegria sentida num gesto, num olhar, numa sensação.
O momento sublime desse intervalo de tempo, é armazenado no fundo do espírito como energia a ser utilizada, quando as forças já não existem para o expressar.

A ti

quinta-feira

Negra

Tudo começa com um grito ao rasgar o ventre ensanguentado. Num instante a duplicação surge, como um desabrochar de um brinde, que caminha em vida inerente, onde o respirar independente corta o cordão umbilical.
A uma velocidade imensa, se atinge uma maturidade assustadora, onde tudo o que até então não era pensado se torna inteligível e questionado.
A procura das causas da realidade, vai assumindo uma importância fundamental naquilo a que chamamos vida. Fazem-se projectos, suplica-se desejos, anseia-se propósitos. O desígnio está traçado, as conquistas surgem, as desilusões conjuntamente vão acompanhando o passo apressado que se atinge até ao culminar conhecido.
As dúvidas, essas, nunca serão respondidas, a cabeça roda e depois de casas, carros, maridos, filhos, dinheiro, tudo acaba da mesma maneira, sem nunca percebermos o que andamos a fazer para um dia levar tão pouco daqui.
O que fazemos aqui, afinal?

quarta-feira

Companheira

O vento sopra forte, as copas das árvores estremecem, sinto o dia ir embora devagarinho… O sol escondeu-se por detrás do claustro, ao fundo vislumbra-se uma linha com uma imensidão de pigmentações, que vai do vermelho ao alaranjado.
O cansaço dos carros de regresso fazem-se escutar, amassado com vozes que resmungam num entoar formoso. O caminho já vai longo e a ânsia de chegar transborda a calceta. Aqui, onde o mundo deu a curva, observo quieta o prazer que usurpa no espírito alheio. Também eu conheço esse atalho… Vivo esse agrado… Chego a senti-lo como meu… Sabendo-o comum, torna-se querido, quando me sento aqui e contemplo ao longe a risca tornar-se negra, sobrando um circulo lácteo, rodeado de pequenos salpicos brilhantes, que me fazem acordar na noite que acudiu.

terça-feira

Vestígios

Talvez seja uma vontade, um sonho ou mesmo uma possibilidade…
O rasto que deixamos no coração dos que se cruzam no nosso caminho, ajuda-nos a sentir a vida de uma forma diferente, mais rica, mais opulenta…
Será esse o propósito da nossa existência? Será que, para além da nossa tranquila vida de seres egocêntricos e cheios de certezas, existe um desígnio mais reduto, onde a dimensão deixa de ser aquela que vemos e se alonga a uma dimensão incorpórea?
Assim quero querer… E se assim for, aqui quero deixar a minha pegada…